Antiinflamatórios (AINEs) para Lesões Musculares: Eles Realmente Ajudam na Recuperação e Por Quantos Dias Usar?

As lesões musculares são uma parte quase inevitável da vida de atletas e praticantes de exercícios. Quando elas ocorrem, a dor e a inflamação podem ser debilitantes, levando muitos a recorrer aos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) em busca de alívio rápido. Mas será que o uso de AINEs é realmente a melhor estratégia para a recuperação? E por quanto tempo é seguro utilizá-los? Vamos mergulhar na ciência para desvendar essas questões e entender como otimizar sua recuperação.

O Debate sobre AINEs e Recuperação Muscular

Por muito tempo, houve um debate sobre os benefícios do uso de AINEs após uma lesão muscular esquelética aguda. Alguns estudos chegaram a sugerir que eles poderiam ser prejudiciais ao músculo lesionado. No entanto, uma extensa revisão sistemática e meta-análise recente lançou luz sobre essa questão.

O Que a Ciência Revela

Um estudo abrangente que analisou 41 pesquisas sobre o tema, publicadas entre 1985 e 2015, trouxe descobertas importantes. Os pesquisadores buscaram entender se o uso de AINEs afeta a recuperação de lesões musculares, avaliando a perda de força, a dor muscular e o nível de creatina quinase (CK) no sangue.

Os principais achados foram animadores:

  • Benefício Geral: De forma geral, o uso de AINEs demonstrou uma redução significativa, de pequeno a médio porte, nos marcadores de lesão muscular aguda. Isso significa que eles são benéficos para diminuir a perda de força, a dor e os níveis de CK no sangue após uma lesão.
  • Lesões em Membros Inferiores: Em humanos, os AINEs pareceram ser mais eficazes para lesões em músculos dos membros inferiores em comparação com os membros superiores. O tamanho do efeito para estudos com grupos musculares dos membros inferiores foi cerca de 5 vezes maior do que para os estudos com grupos musculares dos membros superiores.
  • Tipo de AINE e Início do Tratamento: A eficácia dos AINEs não foi afetada pelo tipo específico de AINE utilizado ou pelo momento em que o tratamento foi iniciado (antes ou depois da lesão).
  • Independentemente do Marcador de Lesão: Os AINEs mostraram um efeito benéfico semelhante, independentemente do tipo de marcador de lesão utilizado (perda de força, dor ou nível de CK no sangue), com tamanhos de efeito variando de 0.29 a 0.47.

A Questão do “Curto Prazo”: Quantos Dias?

A meta-análise sugere que os benefícios dos AINEs são mais evidentes no curto prazo para humanos. Embora o estudo não defina “curto prazo” como exatamente um prazo, a análise dos estudos em humanos indicou que não foram avaliados marcadores de lesão após 14 dias da lesão. Por outro lado, em estudos com animais, os efeitos benéficos dos AINEs diminuíram com o tempo, tornando-se até negativos após 14 dias ou mais.

Isso reforça a ideia de que o tratamento de curto prazo com AINEs de venda livre, geralmente por até 14 dias, é justificado para lesões musculares agudas.

O Uso Criterioso é Fundamental

É crucial entender que, apesar dos benefícios no alívio da dor e na melhora precoce, o uso de AINEs deve ser criterioso e por um

período o mais curto possível. O uso prolongado pode ter efeitos adversos em outros sistemas do corpo, como o gastrointestinal, cardiovascular e renal. Inclusive, as agências reguladoras de medicamentos, como a FDA, exigem avisos sobre esses potenciais efeitos.

Recomendações Práticas para o Uso de AINEs em Lesões Atléticas:

Para auxiliar na decisão, uma revisão sobre o manejo prático do uso de AINEs em lesões atléticas sugere as seguintes diretrizes:

Tipo de LesãoImpacto do Uso de AINEsComentários
Osso
Fraturas consolidadas e fraturas com necessidade de fixação cirúrgica Provavelmente prejudiciais e improváveis de serem úteis, particularmente com uso a longo prazo Pode causar atraso na união ou não união em fraturas de ossos longos e fusões espinais.
Fraturas por estresse Possivelmente prejudiciais e improváveis de serem úteis, particularmente com uso a longo prazo Evitar em fraturas por estresse de maior risco.
Ligamento
Entorses Provavelmente úteis Reduz a dor e permite um retorno mais rápido à atividade. Estudos limitados a entorses de tornozelo.Recomendado curso curto de 3 a 7 dias.
Músculo
Distensões musculares agudas Possivelmente úteis Estudos limitados baseados em modelos animais.Recomendado curso curto de 3 a 7 dias.
Lesão muscular excêntrica Provavelmente útil Reduz a dor e melhora a recuperação muscular. Estudos em humanos são em não-atletas.Recomendado curso curto de 3 a 7 dias.
Lesão muscular crônica Possivelmente prejudicial e improvável de ser útil Pode causar atraso na regeneração muscular.
Contusões musculares profundas Provavelmente útil Previne ossificação heterotópica (HO) e miosite ossificante.Curso mínimo de 7 dias.
Tendão
Tendinopatia Possivelmente útil Apenas para fins analgésicos. Nenhum benefício para a cicatrização do tendão.
Tenossinovite aguda Possivelmente útil Reduz a inflamação e auxilia na recuperação em casos agudos.

O Caminho para a Recuperação Otimizada

Embora os AINEs possam ser uma ferramenta valiosa no manejo da dor e inflamação inicial de lesões musculares, a recuperação ideal vai além da medicação. Fatores como a reabilitação adequada, o descanso e a nutrição desempenham papéis cruciais. Converse sempre com seu médico ou fisioterapeuta para um plano de recuperação personalizado.

Ao utilizar AINEs, lembre-se: o objetivo é o alívio temporário da dor para permitir que o processo de cicatrização natural do corpo ocorra da forma mais eficiente possível, sem prejudicar a regeneração muscular a longo prazo.

Referências

Mehallo, C. J., Drezner, J. A., & Bytomski, J. R. (2006). Practical Management: Nonsteroidal Antiinflammatory Drug (NSAID) Use in Athletic Injuries. Clinical Journal of Sport Medicine, 16(2), 170–174.
Morelli KM, Brown LB, Warren GL. Effect of NSAIDs on Recovery From Acute Skeletal Muscle Injury: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Sports Med. 2018 Jan;46(1):224-233. doi: 10.1177/0363546517697957. Epub 2017 Mar 29. PMID: 28355084.

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Medicina do Esporte

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Dr. Guilherme Adami

Sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, residente em Medicina do Esporte pelo HCFMUSP, e atuo no atendimento de atletas amadores, profissionais e pacientes que buscam evolução física com segurança, estratégia e base científica sólida.

Minha prática é centrada na integração entre emagrecimento, hipertrofia, performance esportiva e cardiologia do exercício, sempre com abordagem individualizada e fundamentada em evidência de alto nível.

Além da atuação clínica, sou fundador da MedEsporte Papers, uma das plataformas educacionais mais completas em Medicina do Esporte no Brasil, reunindo cursos, materiais técnicos, revisões científicas e atualizações constantes para médicos e profissionais da saúde. A proposta é clara: elevar o nível da prática esportiva baseada em evidência.

Minha experiência inclui atuação em modalidades como futebol, endurance e alto rendimento paralímpico, com vivência direta em competições nacionais e internacionais. Essa experiência prática em campo — somada à formação acadêmica — permite decisões clínicas mais precisas, estratégicas e seguras.

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