Se você é atleta, treinador ou simplesmente se interessa por saúde esportiva, sabe que as lesões musculares são um desafio constante. Elas são responsáveis por uma parcela significativa do tempo perdido em treinos e competições. No futebol profissional, por exemplo, mais de 30% de todas as lesões são musculares, e só as lesões nos isquiotibiais (parte posterior da coxa) resultam em uma média de 90 dias de afastamento por clube por temporada.
Para lidar com essa realidade, a precisão no diagnóstico e no prognóstico é fundamental. As classificações de lesões musculares mais utilizadas, que dividem as lesões em três graus (menor, moderada e completa), muitas vezes carecem de exatidão diagnóstica e fornecem informações prognósticas limitadas aos profissionais de saúde.
Pensando nisso, a equipe médica da British Athletics, responsável pelo suporte a atletas de elite no Reino Unido, propôs um novo sistema: a Classificação de Lesões Musculares da British Athletics (BAMIC).
Por Que Precisamos de uma Nova Classificação?
Os sistemas antigos são considerados muito simplistas. Eles não incorporam evidências recentes que são cruciais para o prognóstico, como:
- O comprimento da ruptura muscular na ressonância magnética (RM).
- Lesões “negativas” na RM (quando há sintomas clínicos, mas a imagem não mostra alteração).
- A distância da lesão em relação à origem do músculo.
- A área transversal do edema.
- O envolvimento do tendão.
Além disso, a BAMIC busca resolver inconsistências terminológicas e a falta de clareza nas entidades diagnósticas dos sistemas anteriores.
A Estrutura da BAMIC: Mais Detalhes para um Diagnóstico Preciso
A BAMIC categoriza as lesões em cinco graus principais, de 0 a 4. Para os graus de 1 a 4, um sufixo (‘a’, ‘b’ ou ‘c’) é adicionado para indicar o local e a extensão da lesão, sendo a lesão classificada com o número e a letra mais altos possíveis. É importante notar que o termo “distensão” (strain) não é recomendado para lesões de grau 1-4; o termo “ruptura” (tear) é mais apropriado.
Vamos entender cada grau:
- Grau 0: A Lesão “Invisível” na Imagem
- Representa uma anormalidade clínica, mas sem evidência de patologia na ressonância magnética (RM).
- 0a (Lesão Neuromuscular Focal): Dor muscular localizada, geralmente após ou durante o exercício, com pouca ou nenhuma inibição ou redução de força. Pode refletir dano microscópico ou irritação nervosa. Associada a um bom prognóstico.
- 0b (Dor Muscular Generalizada): Mais comum após exercícios não habituais (como a popular “dor muscular tardia” ou DOMS). A RM pode mostrar alterações de sinal alto generalizadas e irregulares em vários músculos.
- +N (Componente Neural): Pode ser adicionado se houver suspeita de envolvimento neural.
- Graus 1 a 4: As Rupturas Visíveis na RM
- A classificação desses graus depende das características da lesão na RM.
- Sufixos de Localização:
- ‘a’ (Miofascial): Lesão na periferia do músculo.
- ‘b’ (Musculotendínea): Lesão dentro do ventre muscular, geralmente na junção miotendínea (JMT).
- ‘c’ (Intratendínea): Lesão que se estende para dentro do tendão. As lesões com envolvimento tendíneo (‘c’) são consideradas de pior prognóstico.
Detalhes por Grau (Baseados em RM e Apresentação Clínica)
- Grau 1 (Lesões Pequenas): Dor durante ou após a atividade, com amplitude de movimento e força geralmente mantidas. Na RM, pequena alteração de sinal, não excedendo 10% da área muscular e com comprimento inferior a 5 cm.
- Grau 2 (Lesões Moderadas): Dor durante a atividade que força a interrupção. Limitação de movimento e fraqueza detectável. Na RM, alteração de sinal que afeta entre 10% e 50% da área transversal do músculo ou se estende entre 5 e 15 cm de comprimento.
- Grau 3 (Lesões Extensas): Dor de início súbito, com possível queda. Movimento significativamente reduzido e dor ao caminhar. Fraqueza óbvia. Na RM, alteração de sinal que afeta mais de 50% da área transversal ou mais de 15 cm de comprimento.
- Grau 4 (Rupturas Completas): Dor súbita e limitação imediata da atividade. Frequentemente se sente um “gap” palpável. Refere-se a rupturas completas do músculo ou do tendão.
O Papel da Ressonância Magnética (RM)
A RM é a principal ferramenta para classificar as lesões de Grau 1 a 4. O exame é idealmente realizado 24 a 48 horas após a lesão e deve cobrir a região afetada com alta precisão.
Impacto na Prática Clínica e Futuro
A BAMIC está sendo utilizada em atletas de elite no Reino Unido para validação, com o objetivo de fornecer um arcabouço diagnóstico reproduzível. Embora atualmente seja uma opinião de especialistas informada por evidências, ela aguarda validação completa.
Essa classificação promete melhorar a comunicação entre profissionais de saúde, atletas e treinadores, além de estruturar pesquisas futuras para desenvolver estratégias ainda mais eficazes de prevenção e tratamento de lesões musculares. Com um diagnóstico mais preciso, a reabilitação pode ser mais direcionada, levando a retornos mais seguros e eficientes ao esporte.
Referências
Pollock N, James SLJ, Lee JC, et al
British athletics muscle injury classification: a new grading system
British Journal of Sports Medicine 2014;48:1347-1351.