O Modelo dos 5 A’s no Aconselhamento sobre Obesidade: Uma Análise Completa Baseada em Evidências

O modelo dos 5 A’s representa uma das mais importantes ferramentas de intervenção comportamental baseada em evidências para o manejo da obesidade na atenção primária. Trata-se de uma estrutura projetada para guiar profissionais de saúde em um aconselhamento eficaz e colaborativo, que vai além da simples prescrição de dietas. Uma análise aprofundada da literatura científica revela não apenas a definição e as variações deste modelo, mas também seus desfechos clínicos, a percepção dos pacientes e a lacuna crítica que existe entre a teoria e a prática diária.

1. O Que São os 5 A’s? O Modelo de Referência e Suas Variações

Embora existam múltiplas versões na literatura, um modelo frequentemente citado como referência, inclusive pela Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA (USPSTF), é composto pelas seguintes etapas:

  1. Assess (Avaliar): Avaliar os riscos comportamentais, o Índice de Massa Corporal (IMC), a circunferência da cintura, o estágio da obesidade e, fundamentalmente, a prontidão do paciente para a mudança.
  2. Advise (Aconselhar): Fornecer um aconselhamento claro, específico e personalizado sobre a necessidade de mudança, informando sobre os riscos do excesso de peso para a saúde e os benefícios de uma perda de peso, mesmo que modesta.
  3. Agree (Acordar/Concordar): Selecionar, em colaboração com o paciente, metas de tratamento e métodos que sejam realistas e baseados em seu interesse e disposição para a mudança.
  4. Assist (Ajudar/Apoiar): Ajudar o paciente a atingir as metas acordadas, auxiliando no desenvolvimento de habilidades, na superação de barreiras e no fornecimento de recursos e suporte social.
  5. Arrange (Agendar/Acompanhar): Agendar contatos de acompanhamento (presenciais ou por telefone) para fornecer suporte contínuo, ajustar o plano de tratamento e, se necessário, encaminhar para cuidados mais especializados.

É crucial entender que a literatura apresenta variações. Alguns estudos importantes, como o de

Alexander et al., iniciam o processo com “Ask” (Perguntar), focando em pedir permissão para discutir o peso, e posicionam o “Assess” (avaliar a prontidão) após o aconselhamento. Outra proposta, de

Vallis et al., sugere um modelo de “5 A’s Modificados” onde a etapa “Arrange” é incorporada como parte da definição de “Assist”. Apesar dessas nuances, o núcleo do modelo — uma abordagem estruturada, progressiva e colaborativa — permanece consistente.

2. O Impacto do Modelo: Desfechos na Prática Clínica

A aplicação dos 5 A’s gera desfechos mensuráveis em diferentes esferas: na percepção e motivação do paciente e, mais importante, em mudanças reais de comportamento e peso.

2.1. Percepção e Motivação do Paciente

A qualidade e a profundidade do aconselhamento são determinantes. O estudo de

Jay et al. demonstrou uma correlação direta entre o número de práticas dos 5 A’s utilizadas pelo médico e a prontidão do paciente para a mudança.

  • Pacientes com maiores níveis de motivação para perder peso e intenção de comer melhor e se exercitar relataram ter recebido um número maior de técnicas de aconselhamento dos 5 A’s.
  • Estatisticamente, cada prática de aconselhamento adicional foi associada a maiores chances (odds) de o paciente estar motivado a perder peso (OR 1.31), de ter a intenção de comer melhor (OR 1.23) e de se exercitar regularmente (OR 1.14).

2.2. Desfechos Reais: Mudança de Hábito e Perda de Peso

A motivação é um passo essencial, mas o objetivo final é a mudança concreta. O estudo de

Alexander et al. investigou o impacto de cada “A” separadamente e trouxe achados cruciais.

  • A etapa “Assist” (Ajudar/Apoiar) foi diretamente relacionada a uma melhora real na dieta do paciente.
  • A etapa “Arrange” (Agendar/Acompanhar) foi a única associada a uma perda de peso real e mensurável após 3 meses. Pacientes que tiveram um acompanhamento agendado perderam, em média, 1,5 kg, enquanto o grupo de controle teve um leve ganho de peso.

Esses resultados sublinham que, enquanto as primeiras etapas constroem a base motivacional, são as etapas de apoio e, fundamentalmente, de acompanhamento que concretizam a perda de peso.

3. A Lacuna Crítica: O Que os Pacientes Querem vs. O Que os Médicos Fazem

Apesar da eficácia comprovada do modelo completo, existe uma desconexão significativa entre a prática médica padrão e as necessidades dos pacientes, como apontado pela revisão de Sherson et al..

  • O Que os Pacientes Querem: A maioria dos pacientes deseja discutir a perda de peso. Suas maiores demandas se concentram nas etapas de “Assist” (Ajudar/Apoiar) e “Arrange” (Agendar/Acompanhar). Eles buscam ajuda prática, recursos, encaminhamentos e, principalmente, um acompanhamento contínuo que demonstre o compromisso do médico com seu processo.
  • O Que os Médicos Fazem: Na prática, os médicos utilizam com muito mais frequência as etapas “Advise” (Aconselhar) e “Assess” (Avaliar). As etapas de “Agree” (Acordar/Concordar), “Assist” (Ajudar/Apoiar) e “Arrange” (Agendar/Acompanhar) são raramente implementadas.

Essa lacuna representa a principal barreira para a eficácia do aconselhamento sobre obesidade. Os médicos estão focando nas etapas que iniciam a conversa, enquanto os pacientes anseiam pelas etapas que sustentam a mudança a longo prazo. A boa notícia é que o treinamento pode corrigir isso. Um estudo de

Pollak et al. demonstrou que um breve treinamento online foi capaz de aumentar significativamente o uso das etapas “Assess”, “Assist” e “Arrange” pelos médicos.

Referências

  1. Alexander SC, Cox ME, Boling Turer CL, et al. Do the five A’s work when physicians counsel about weight loss? Fam Med 2011; 43: 179-84.
  2. Conn VS, Ruppar TM, Enriquez M, Cooper PS. Patient-centered Outcomes of Medication Adherence Interventions: Systematic Review and Meta-Analysis. Value Health. 2016 Mar; 19(2): 277-85.
  3. Jay M, Gillespie C, Schlair S, Sherman S, Kalet A. Physicians’ use of the 5As in counseling obese patients: is the quality of counseling associated with patients’ motivation and intention to lose weight? BMC Health Serv Res 2010; 10: 159.
  4. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. The American Journal of Clinical Nutrition 2025; 122: 344-367.
  5. Pollak KI, Tulsky JA, Bravender T, et al. Teaching primary care physicians the 5 A’s for discussing weight with overweight and obese adolescents. Patient Educ Couns. 2016 Oct; 99(10): 1620-5.
  6. Sherson EA, Jimenez EY, Katalanos N. A review of the use of the 5 A’s model for weight loss counselling: differences between physician practice and patient demand. Fam Pract. 2014 Aug; 31(4): 389-98.
  7. Vallis M, Piccinini-Vallis H, Sharma AM, Freedhoff Y. Clinical review: modified 5 As: minimal intervention for obesity counseling in primary care. Can Fam Physician 2013; 59: 27-31.

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Medicina do Esporte

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Dr. Guilherme Adami

Sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, residente em Medicina do Esporte pelo HCFMUSP, e atuo no atendimento de atletas amadores, profissionais e pacientes que buscam evolução física com segurança, estratégia e base científica sólida.

Minha prática é centrada na integração entre emagrecimento, hipertrofia, performance esportiva e cardiologia do exercício, sempre com abordagem individualizada e fundamentada em evidência de alto nível.

Além da atuação clínica, sou fundador da MedEsporte Papers, uma das plataformas educacionais mais completas em Medicina do Esporte no Brasil, reunindo cursos, materiais técnicos, revisões científicas e atualizações constantes para médicos e profissionais da saúde. A proposta é clara: elevar o nível da prática esportiva baseada em evidência.

Minha experiência inclui atuação em modalidades como futebol, endurance e alto rendimento paralímpico, com vivência direta em competições nacionais e internacionais. Essa experiência prática em campo — somada à formação acadêmica — permite decisões clínicas mais precisas, estratégicas e seguras.

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