É possível curar a diabetes sem tomar remédios?

A diabetes tipo 2 afeta milhões de pessoas ao redor do mundo e, tradicionalmente, seu tratamento é feito com o uso de medicamentos para controlar os níveis de glicose no sangue. No entanto, estudos recentes mostram que pode ser possível reverter ou “curar” o diabetes tipo 2 sem o uso de remédios, através de intervenções focadas na perda de peso. Mas como isso funciona? Vamos explorar essa questão com base nas últimas evidências científicas.

O que é remissão do diabetes?

Antes de entender se é possível “curar” a diabetes sem remédios, é importante entender o conceito de remissão do diabetes. Remissão é quando os níveis de glicose no sangue retornam ao normal (ou próximos do normal) e a pessoa consegue manter esse controle sem o uso de medicamentos antidiabéticos. Isso não significa que a pessoa está completamente “curada” da diabetes, pois, sem o manejo adequado, a doença pode voltar.

A relação entre o peso e o diabetes tipo 2

A diabetes tipo 2 está fortemente associada ao excesso de peso e à gordura visceral, especialmente a que se acumula no fígado e no pâncreas. Essa gordura interfere na capacidade do corpo de produzir e usar a insulina de maneira eficaz, levando ao aumento dos níveis de glicose no sangue. Estudos mostram que a perda de peso significativa pode reduzir esses depósitos de gordura, permitindo que o corpo volte a regular a glicose de maneira mais eficaz.

O estudo DiRECT: evidências para a remissão do diabetes sem remédios

O estudo DiRECT (Diabetes Remission Clinical Trial) forneceu fortes evidências de que a remissão do diabetes tipo 2 pode ser alcançada sem o uso de medicamentos. O estudo foi conduzido em clínicas de atenção primária na Escócia e na Inglaterra, e envolveu 306 indivíduos com diabetes tipo 2 recente (diagnosticados nos últimos seis anos) e com sobrepeso ou obesidade.

Metodologia

Os participantes do estudo foram divididos em dois grupos:

  • Grupo de Intervenção: Receberam uma dieta de baixa caloria (825–853 kcal por dia) por um período de 3 a 5 meses, seguida por uma reintrodução gradual de alimentos e um programa de manutenção de peso.
  • Grupo Controle: Receberam o tratamento padrão para diabetes, que incluía o uso de medicamentos para controlar a glicose no sangue.

Os medicamentos antidiabéticos dos participantes do grupo de intervenção foram suspensos no início do estudo, e a remissão foi definida como níveis de HbA1c (hemoglobina glicada) abaixo de 6,5% sem o uso de qualquer medicamento antidiabético por pelo menos dois meses.

Resultados do estudo

Os resultados foram impressionantes:

  • 46% dos participantes no grupo de intervenção alcançaram a remissão do diabetes após 12 meses.
  • No grupo controle, apenas 4% alcançaram a remissão.
  • A remissão foi diretamente relacionada à quantidade de peso perdido: 86% dos participantes que perderam 15 kg ou mais alcançaram a remissão do diabetes.

Esses achados mostram que a perda de peso significativa, especialmente nas fases iniciais da diabetes tipo 2, pode levar à remissão da doença e permitir que as pessoas parem de tomar medicamentos.

Quantas pessoas permanecem em remissão do diabetes após 5 anos?

O estudo DiRECT trouxe resultados promissores sobre a possibilidade de remissão do diabetes tipo 2 através de uma intervenção intensiva de perda de peso. No entanto, manter essa remissão a longo prazo apresentou desafios significativos. Após o primeiro ano do estudo, 46% dos participantes no grupo de intervenção atingiram a remissão do diabetes. Isso representou uma vitória significativa para os pacientes que conseguiram reduzir seus níveis de glicose no sangue sem o uso de medicamentos antidiabéticos.

O que aconteceu após 5 anos?

O acompanhamento de longo prazo revelou uma realidade mais complexa. Após cinco anos, apenas 11% dos participantes do grupo de intervenção que mantiveram o acompanhamento continuavam em remissão do diabetes. Embora a perda de peso tenha sido essencial para alcançar a remissão no início, a dificuldade em manter esse peso perdido ao longo dos anos foi um fator crítico para o retorno dos níveis de glicose no sangue a padrões diabéticos.

Essa taxa de 11% reflete o desafio de manter hábitos saudáveis e um peso corporal adequado por um longo período. Aqueles que experimentaram reganho de peso viram o retorno da condição, mesmo após uma remissão inicial bem-sucedida. Portanto, o sucesso inicial na perda de peso e remissão do diabetes requer um compromisso contínuo com o estilo de vida saudável para garantir resultados duradouros.

Por que é difícil manter a remissão?

A chave para a remissão está na manutenção da perda de peso. No entanto, o reganho de peso ao longo do tempo foi observado em muitos participantes. Este fenômeno é comum em intervenções de perda de peso e demonstra a importância de programas de suporte contínuo. Os dados mostram que, embora a remissão seja alcançável, mantê-la depende de um acompanhamento prolongado e de uma abordagem sustentável para alimentação e atividade física.

Conclusão

Embora os resultados do estudo DiRECT mostrem que a remissão do diabetes tipo 2 sem o uso de medicamentos é possível, o acompanhamento de cinco anos sugere que manter a remissão é o verdadeiro desafio. Com apenas 11% dos participantes em remissão após cinco anos, fica claro que a perda de peso e o suporte contínuo são fundamentais para o sucesso a longo prazo. Portanto, alcançar a remissão é apenas o começo — o foco deve estar em manter os hábitos que sustentam essa conquista ao longo do tempo.

Referências:

doi: 10.1016/ S2213-8587(23)00385-6

doi: 10.1016/S0140-6736(17)33102-1

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Medicina do Esporte

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Dr. Guilherme Adami

Sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, residente em Medicina do Esporte pelo HCFMUSP, e atuo no atendimento de atletas amadores, profissionais e pacientes que buscam evolução física com segurança, estratégia e base científica sólida.

Minha prática é centrada na integração entre emagrecimento, hipertrofia, performance esportiva e cardiologia do exercício, sempre com abordagem individualizada e fundamentada em evidência de alto nível.

Além da atuação clínica, sou fundador da MedEsporte Papers, uma das plataformas educacionais mais completas em Medicina do Esporte no Brasil, reunindo cursos, materiais técnicos, revisões científicas e atualizações constantes para médicos e profissionais da saúde. A proposta é clara: elevar o nível da prática esportiva baseada em evidência.

Minha experiência inclui atuação em modalidades como futebol, endurance e alto rendimento paralímpico, com vivência direta em competições nacionais e internacionais. Essa experiência prática em campo — somada à formação acadêmica — permite decisões clínicas mais precisas, estratégicas e seguras.

Atendo desde indivíduos que desejam melhorar composição corporal até atletas de alto nível que precisam otimizar cada detalhe da performance.

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