Nos últimos anos, o entendimento sobre os impactos dos diferentes tipos de exercício na saúde cardiometabólica avançou consideravelmente. Entretanto, poucos estudos foram tão robustos e abrangentes quanto o STRRIDE AT/RT (Studies of a Targeted Risk Reduction Intervention through Defined Exercise – Aerobic and Resistance Training), conduzido por pesquisadores das universidades Duke e East Carolina, nos Estados Unidos.
O grande diferencial desse projeto foi avaliar de forma simultânea, dentro da mesma população e com o mesmo protocolo experimental, os efeitos do treinamento aeróbico (AT), do treinamento resistido (RT) e da combinação dos dois (AT/RT) sobre múltiplos desfechos clínicos e fisiológicos.
Este texto tem como objetivo apresentar uma visão abrangente sobre o STRRIDE AT/RT, abordando sua metodologia central e destrinchando os cinco principais braços analíticos publicados, que avaliaram composição corporal, função hepática e resistência à insulina, qualidade de vida, função cardiovascular e síndrome metabólica.
Metodologia do STRRIDE AT/RT
O STRRIDE AT/RT foi um ensaio clínico randomizado, realizado de forma multicêntrica nas universidades Duke e East Carolina. Participaram adultos sedentários, com idade entre 18 e 70 anos, com sobrepeso ou obesidade (IMC entre 25 e 35 kg/m²) e dislipidemia leve a moderada. Foram excluídos pacientes com diabetes, hipertensão significativa, doença cardiovascular estabelecida ou uso de tabaco.
O protocolo incluiu uma fase inicial de run-in de quatro meses, na qual os participantes mantiveram seus hábitos de vida, seguida de randomização para três grupos:
- Aeróbico (AT)
- Resistido (RT)
- Combinado (AT/RT)
A intervenção durou oito meses. O grupo AT realizou cerca de 120 minutos semanais de exercício aeróbico a 65–80% do VO₂ pico (equivalente a aproximadamente 12 milhas semanais). O grupo RT realizou três sessões semanais de treinamento resistido, com oito exercícios cobrindo grandes grupos musculares, três séries de 8 a 12 repetições. O grupo combinado realizou ambos os protocolos na íntegra.
Importante destacar que os estudos foram conduzidos simultaneamente, utilizando a mesma população, com pequenas variações no tamanho amostral conforme a disponibilidade de dados específicos (como exames de tomografia, função endotelial ou questionários completos).
Análise dos Cinco Principais Estudos Derivados do STRRIDE AT/RT
1. Composição Corporal e Ingestão Energética
O primeiro estudo analisou como os diferentes tipos de exercício impactam a composição corporal e a ingestão calórica espontânea, sem intervenção dietética.
Os resultados mostraram que tanto o grupo AT quanto o AT/RT reduziram significativamente o peso corporal (−1,3 kg e −1,5 kg, respectivamente) e a gordura visceral. Além disso, ambos os grupos reduziram de forma espontânea a ingestão calórica diária em aproximadamente 200 kcal. Por outro lado, o grupo RT não apresentou redução de peso nem de gordura visceral, mas aumentou significativamente a massa magra.
Este braço confirmou que o treino aeróbico, isolado ou combinado, gera déficit energético espontâneo, enquanto o treino resistido promove ganhos estruturais de massa muscular sem impacto sobre o balanço calórico total.
Referência: Willis LH et al. Aerobic and Resistance Training Effects on Energy Intake: The STRRIDE AT/RT Study. Am J Clin Nutr. 2013.
2. Gordura Visceral, Gordura Hepática e Resistência à Insulina
O segundo estudo teve como foco os efeitos dos diferentes treinamentos sobre depósitos de gordura ectópica (visceral e hepática) e sobre a resistência à insulina, avaliada pelo HOMA-IR.
Os achados foram bastante claros: o treinamento aeróbico promoveu redução significativa da gordura visceral, melhora da densidade hepática (indicando redução de gordura no fígado), redução das enzimas hepáticas ALT e melhora da resistência à insulina. O treinamento combinado apresentou resultados semelhantes ao aeróbico isolado, sem vantagem adicional. O treinamento resistido isolado não promoveu nenhuma melhora relevante nesses parâmetros, apesar do aumento da massa magra.
Este foi um dos resultados mais consistentes em demonstrar a superioridade do treino aeróbico para controle da gordura ectópica e melhora da sensibilidade à insulina.
Referência: Slentz CA et al. Effects of Aerobic vs. Resistance Training on Visceral and Liver Fat Stores, Liver Enzymes, and Insulin Resistance by HOMA in Overweight Adults from STRRIDE AT/RT. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2011.
3. Qualidade de Vida Relacionada à Saúde
O terceiro estudo avaliou os impactos dos diferentes tipos de exercício sobre a qualidade de vida, medida através do questionário SF-36 e de escalas de satisfação com aparência e função física.
O treinamento combinado (AT/RT) foi o que promoveu os maiores ganhos, tanto no componente físico quanto no mental do SF-36, além de apresentar a maior melhora na satisfação com a aparência corporal. O treinamento aeróbico isolado trouxe melhorias significativas no componente físico e na vitalidade, enquanto o treinamento resistido isolado melhorou a satisfação com a função física, mas não impactou a percepção de saúde mental, composição corporal ou aparência.
Esse braço sugere que, quando o objetivo inclui bem-estar global, percepção de saúde e satisfação com a própria imagem, o treino combinado pode ser mais efetivo.
Referência: Willis LH et al. Aerobic, Resistance, and Combination Training on Health-Related Quality of Life: The STRRIDE AT/RT Randomized Trial. Health Psychol. 2010.
4. Função Vascular e Acoplamento Ventrículo-Arterial
Este estudo teve como objetivo avaliar adaptações cardiovasculares específicas, incluindo acoplamento ventrículo-arterial e função vascular periférica.
Curiosamente, este braço não incluiu o grupo combinado, sendo uma comparação direta entre AT e RT. O treinamento aeróbico promoveu aumentos significativos no VO₂ pico, no O₂-pulso e no diâmetro arterial braquial, sugerindo remodelamento vascular estrutural e melhora da função cardiorrespiratória. Já o treinamento resistido não aumentou VO₂ pico, mas melhorou significativamente a função endotelial (aumento da vasodilatação dependente do endotélio medida por FMD) e promoveu aumento do volume diastólico final do ventrículo esquerdo.
Portanto, as adaptações cardiovasculares foram complementares, com o aeróbico favorecendo eficiência cardiorrespiratória e o resistido impactando positivamente a função endotelial e o remodelamento cardíaco.
Referência: Bateman LA et al. Aerobic Versus Resistance Training Effects on Ventricular-Arterial Coupling and Vascular Function in the STRRIDE AT/RT Trial. J Appl Physiol. 2011.
5. Síndrome Metabólica
O quinto estudo avaliou o impacto dos diferentes tipos de exercício sobre a síndrome metabólica, utilizando tanto os critérios do ATP III quanto um escore z contínuo.
Os resultados foram consistentes com outros braços do estudo. O treinamento resistido isolado não promoveu melhora na síndrome metabólica e, inclusive, houve tendência de piora no escore de critérios do ATP III. O treinamento aeróbico isolado promoveu melhora borderline no escore z da síndrome metabólica (p=0,067). O treinamento combinado foi o único a promover melhora robusta e estatisticamente significativa, com redução do escore z, da circunferência abdominal, dos triglicerídeos e da pressão arterial média.
Quando ponderado pelo tempo investido, o treino aeróbico se mostrou a estratégia mais eficiente para melhorar a síndrome metabólica.
Referência: Bateman LA et al. Comparison of Aerobic Versus Resistance Exercise Training Effects on Metabolic Syndrome (from the STRRIDE AT/RT Trial). Am J Cardiol. 2011.
Considerações Finais
O STRRIDE AT/RT permanece, até hoje, como uma das evidências mais sólidas na comparação direta dos efeitos do treinamento aeróbico, resistido e combinado na saúde cardiometabólica de indivíduos com sobrepeso e dislipidemia.
Os resultados são consistentes ao demonstrar que:
- O treinamento aeróbico é mais efetivo para redução de gordura visceral, melhora da função hepática, sensibilidade à insulina, síndrome metabólica e capacidade cardiorrespiratória.
- O treinamento resistido é altamente efetivo para aumento de força e massa magra, mas não impacta de forma relevante os principais marcadores metabólicos.
- O treinamento combinado oferece ganhos adicionais em força, aparência e percepção de qualidade de vida, mas não apresenta vantagens metabólicas claras sobre o aeróbico isolado, considerando-se o maior tempo necessário para sua execução.
Este conjunto de estudos fornece embasamento robusto para que médicos, nutricionistas e profissionais de saúde possam individualizar a prescrição de exercício físico de acordo com os objetivos clínicos e preferências dos pacientes.
Referências
- Willis LH, Slentz CA, Bateman LA, et al. Aerobic and Resistance Training Effects on Energy Intake: The STRRIDE AT/RT Study. Am J Clin Nutr. 2013;98(3):677-688. doi:10.3945/ajcn.112.046373
- Slentz CA, Bateman LA, Willis LH, et al. Effects of Aerobic vs. Resistance Training on Visceral and Liver Fat Stores, Liver Enzymes, and Insulin Resistance by HOMA in Overweight Adults from STRRIDE AT/RT. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2011;301(5):E1033-E1039. doi:10.1152/ajpendo.00291.2011
- Willis LH, Slentz CA, Bateman LA, et al. Aerobic, Resistance, and Combination Training on Health-Related Quality of Life: The STRRIDE AT/RT Randomized Trial. Health Psychol. 2010;29(4):491-498. doi:10.1037/a0019903
- Bateman LA, Slentz CA, Willis LH, et al. Aerobic Versus Resistance Training Effects on Ventricular-Arterial Coupling and Vascular Function in the STRRIDE AT/RT Trial. J Appl Physiol. 2011;111(4):950-958. doi:10.1152/japplphysiol.00291.2011
- Bateman LA, Slentz CA, Willis LH, et al. Comparison of Aerobic Versus Resistance Exercise Training Effects on Metabolic Syndrome (from the STRRIDE AT/RT Trial). Am J Cardiol. 2011;108(6):838-844. doi:10.1016/j.amjcard.2011.04.037